O Carnaval do Rio não nasceu em um único ano e não começou com as escolas de samba.

A festa que hoje reconhecemos foi sendo construída ao longo de séculos por tradições de rua, bailes de elite, comunidades negras, músicos, grupos de bairro, escolas de samba e grandes mudanças na forma como a cidade organizava o Carnaval.

Entender essa história ajuda a ler melhor a festa atual — dos blocos de rua aos desfiles competitivos na Sapucaí.

História do Carnaval do Rio: uma linha do tempo rápida

PeríodoO que mudou
Rio colonial e imperialO entrudo se tornou uma das principais formas de brincadeira de Carnaval nas ruas
Século XIXBailes, sociedades, cordões, ranchos e outras tradições de rua se desenvolveram e conviveram
1916–1917“Pelo Telefone” foi registrado e gravado, tornando-se um marco na história do samba
1928A Deixa Falar foi fundada no Estácio
1932O Rio realizou o primeiro grande desfile competitivo de escolas de samba
1984O Sambódromo foi inaugurado
HojeDesfiles competitivos de escolas de samba e blocos de rua continuam sendo duas partes centrais do Carnaval carioca

Não existe uma única data que marque o “nascimento” do Carnaval do Rio. Cada um desses momentos mudou o que a festa viria a se tornar.

Entrudo: Carnaval antes do samba

Uma das principais tradições carnavalescas do Brasil colonial e imperial era o entrudo, uma forma de brincadeira de rua trazida de Portugal.

No Rio, as pessoas jogavam água, farinha e outras substâncias umas nas outras, às vezes usando pequenos recipientes de cera cheios de líquido. A brincadeira podia ser divertida, mas também podia ficar bastante agressiva.

As autoridades tentaram reprimir a prática repetidas vezes ao longo do século XIX.

Um documento de 1854 preservado pelo Arquivo Nacional, por exemplo, mostra a polícia pedindo reforços para fazer cumprir as regras municipais contra o entrudo durante o Carnaval.

Essas proibições não fizeram a tradição simplesmente desaparecer.

Em vez disso, diferentes formas de Carnaval continuaram convivendo e mudando.

Rio no século XIX: bailes, cordões e tradições de rua

Ao longo do século XIX, o Carnaval do Rio ficou cada vez mais diverso.

Bailes de máscaras e sociedades organizadas passaram a fazer parte das comemorações, enquanto cordões, ranchos e outros grupos populares ocupavam o espaço público com música, fantasias e cortejos.

Os grupos de Zé Pereira, conhecidos pela percussão pesada, acrescentavam outro som marcante às ruas.

Essas tradições fazem parte da história do Carnaval carioca, mas o samba não surgiu de apenas uma delas.

O samba que acabaria profundamente ligado ao Rio se desenvolveu depois, dentro de um universo social e musical afro-brasileiro muito mais amplo.

Como o samba tomou forma no Rio

No início do século XX, regiões em torno da Praça Onze, Cidade Nova e zona portuária eram importantes pontos de encontro de comunidades negras, músicos, trabalhadores e redes religiosas.

Essa área mais ampla está diretamente ligada à história hoje lembrada como Pequena África.

O samba tomou forma a partir de uma mistura de tradições musicais, religiosas e sociais enraizadas tanto na diáspora africana quanto no próprio Rio urbano.

Praça Onze, Pequena África e Tia Ciata

Tia Ciata foi uma das figuras centrais dessa história.

Baiana, líder religiosa e comunitária, tornou-se uma referência importante entre as comunidades negras do Rio. Sua casa ficou associada a encontros que reuniam músicos e outras figuras relevantes dos primeiros tempos do samba.

Seu papel é muito maior do que simplesmente “receber músicos”. Ela representa uma rede mais ampla de mulheres, famílias, espaços religiosos e vida comunitária que ajudou a sustentar a cultura afro-brasileira no Rio.

Quem quiser aprofundar essa parte da história da cidade pode explorar muitas dessas conexões no Little Africa Walking Tour.

Para conhecer outras formas de explorar a cidade, veja nossas experiências culturais e locais no Rio.

“Pelo Telefone”

Um dos marcos mais conhecidos veio com “Pelo Telefone”.

A composição associada a Donga foi registrada em 1916 e gravada em 1917. A Biblioteca Nacional considera a música o primeiro samba gravado no Brasil, embora a história das primeiras gravações e da própria autoria seja mais complexa do que uma simples etiqueta de “primeiro samba da história”.

Parte da importância está no que veio depois: o samba começava a ganhar visibilidade para além das comunidades em que já vinha se desenvolvendo.

Estácio e um novo ritmo para desfilar

Outra mudança importante aconteceu no Estácio.

Músicos da região ajudaram a desenvolver uma forma de samba mais propulsiva, especialmente adequada a grupos em movimento pelas ruas.

Essa abordagem rítmica ficou intimamente ligada ao formato emergente das escolas de samba e ajudou a moldar o som dos desfiles de Carnaval.

Deixa Falar e o nascimento das escolas de samba

Em 1928, músicos do Estácio fundaram a Deixa Falar.

Ela é amplamente tratada como uma escola pioneira e ajudou a estabelecer ideias que seriam desenvolvidas por escolas posteriores, embora a própria categoria “escola de samba” ainda estivesse em formação.

Uma explicação muito conhecida para a palavra “escola” vem do sambista Ismael Silva.

Segundo esse relato, uma instituição próxima formava professores, enquanto os músicos do Estácio formariam “professores de samba”.

Independentemente de cada detalhe da história ser tomado literalmente, o nome capturava algo importante: um novo tipo de organização carnavalesca estava surgindo.

A primeira competição de escolas de samba

No início dos anos 1930, grupos ligados a lugares como Mangueira e Oswaldo Cruz vinham desenvolvendo desfiles cada vez mais estruturados.

Em 1932, o jornal Mundo Sportivo organizou o primeiro grande desfile competitivo reconhecido como concurso de escolas de samba.

Dezenove grupos participaram.

A própria Deixa Falar não entrou naquela competição como escola de samba, outro lembrete de que a passagem de blocos e ranchos para o formato de escola não foi tão organizada quanto alguns relatos posteriores fazem parecer.

O modelo competitivo continuou evoluindo e acabou se tornando uma das instituições definidoras do Carnaval do Rio.

O Sambódromo muda o desfile

Durante décadas, os desfiles das escolas usaram diferentes avenidas e estruturas temporárias para o público.

Em 1984, o Rio inaugurou a Passarela Professor Darcy Ribeiro, mais conhecida como Sambódromo ou Sambódromo da Marquês de Sapucaí.

Projetado por Oscar Niemeyer, o espaço deu aos principais desfiles uma casa permanente.

Isso mudou a organização física do evento.

Em vez de reconstruir arquibancadas temporárias todos os anos, o Rio passou a ter uma avenida exclusiva para os desfiles, com áreas permanentes para espectadores e infraestrutura pensada em torno da competição das escolas.

O Sambódromo não substituiu o Carnaval de rua. Ele criou um palco permanente para uma parte específica de uma festa muito maior.

Como funciona o Carnaval do Rio hoje

O Carnaval moderno fica mais fácil de entender quando se separam duas experiências que visitantes às vezes confundem.

Escolas de samba

Escolas de samba são grandes organizações comunitárias que passam boa parte do ano preparando um desfile competitivo.

Cada escola desenvolve um enredo, expresso por meio de:

  • samba-enredo;
  • bateria;
  • fantasias;
  • alegorias e adereços;
  • coreografia e performance;
  • o movimento de milhares de componentes pela avenida.

Na disputa do Grupo Especial de 2026, as escolas foram julgadas oficialmente em nove quesitos:

  • Comissão de Frente;
  • Bateria;
  • Mestre-Sala e Porta-Bandeira;
  • Alegorias e Adereços;
  • Harmonia;
  • Fantasias;
  • Enredo;
  • Evolução;
  • Samba-Enredo.

Blocos de rua

Blocos são outra coisa.

São grupos e cortejos de Carnaval na rua, que vão de pequenas reuniões de bairro a eventos capazes de atrair multidões enormes.

Não existe um único formato de bloco. Música, tamanho, tradição e clima variam bastante.

Essa convivência entre competição altamente estruturada no Sambódromo e celebração muito mais fluida nas ruas é uma das características definidoras do Carnaval do Rio.

Carnaval do Rio em 2026: um retrato do tamanho da festa

A escala do evento atual é enorme.

Para o Carnaval de rua de 2026, a Prefeitura do Rio programou 458 desfiles de blocos e esperava mais de 6 milhões de participantes nas festas de rua.

No Sambódromo, o Grupo Especial desfilou ao longo de três noites, com quatro escolas programadas por noite.

Esses números mudam de ano para ano, mas ajudam a mostrar como o Carnaval contemporâneo funciona ao mesmo tempo como cultura de bairro, grande evento público e competição formal.

Como explorar a história do Carnaval no Rio hoje

Você não precisa visitar a cidade durante a semana de Carnaval para entender a festa.

Pequena África

A zona portuária e a Pequena África oferecem contexto essencial para entender a história do samba, a cultura negra e as comunidades que moldaram o Rio moderno.

Uma caminhada focada no tema faz mais sentido do que tentar reduzir essa história a uma parada rápida dentro de um city tour.

Cidade do Samba

A Cidade do Samba é o complexo de produção ligado às principais escolas de samba.

Uma atração independente instalada ali, a Carnaval Experience, oferece contato com elementos da produção das escolas e atualmente inclui atividades ligadas à história do Carnaval, fantasias e samba.

Se no futuro essa experiência for incluída ou vendida pela Be Free, a relação comercial deve ser explicitada. Caso contrário, deve ser apresentada como opção independente, e não como produto da Be Free.

Sambódromo

Fora das datas de desfile, ver o Sambódromo pessoalmente ajuda a entender a escala e a estrutura física da competição.

Durante o Carnaval, o mesmo espaço se transforma no palco dos grandes desfiles das escolas de samba.

Por que essa história ainda importa

Conhecer a história muda o que você percebe.

Um desfile de escola de samba não é simplesmente uma sequência de fantasias e carros alegóricos. Ele reúne identidade de bairro, música, artes visuais, narrativa, competição e meses de trabalho coletivo.

Os blocos de rua pertencem a outra tradição, com suas próprias histórias e maneiras de ocupar a cidade.

O Carnaval do Rio faz mais sentido quando essas camadas são vistas juntas: não como uma linha reta do “caos” ao espetáculo, mas como uma festa repetidamente transformada pelas pessoas e comunidades do Rio.